Racismo institucional na saúde: por que os negros estão morrendo mais durante a pandemia?

Atualizado: Mar 11


O racismo ainda é uma realidade. Infelizmente. São muitas situações que nos mostram que ainda há muito a ser feito para superar esta barreira.

No ano em que estamos vivendo uma crise mundial provocada pelo novo coronavírus, a pandemia tem evidenciado o que vários estudos já mostravam em relação ao maior prejuízo da população pobre e negra ao acesso à saúde. A covid-19 encontra um terreno favorável porque essas pessoas estão em um cenário de desigualdade de saúde e de precarização da vida, afirma Emanuelle Góes, doutora em saúde pública pela Universidade Federal da Bahia e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz sobre desigualdades raciais e acesso a serviços de saúde, em entrevista para a BBC News Brasil.

Para se ter uma ideia, de 11 a 26 de abril, as mortes de pacientes negros confirmadas pelo governo federal, foram de pouco mais de 180 para mais de 930. Os números evidenciam que os negros estão morrendo mais durante a pandemia.

A disparidade socioeconômica que vivemos em nossa sociedade é uma das respostas mais assertivas para o porquê disso estar acontecendo.

No entanto, o Nexo aponta outras duas possíveis causas, a primeira está relacionada às predisposições de pessoas negras desenvolverem ou serem portadores de doenças que as classificaram como grupo de risco; e a segunda é chamada de racismo institucional na área da saúde.

Observando a segunda questão, as práticas racistas que ocorrem no âmbito da saúde não são casos isolados, mas compõem uma estrutura racista. Essas práticas são traduzidas em diagnósticos incompletos, exames que não são feitos, desprezo em situações de emergência e até a recusa de tocar o paciente.

A partir daí, é possível entender porque os negros morrem mais.

Maysa Teotônio, integrante do Grupo de Estudo sobre Negritude Interseccionalidade (Geni), afirmou ao Nexo, na matéria citada anteriormente, que pesquisas apontam que as mulheres negras recebem menos analgesia durante a assistência ao parto do que realmente é necessário, porque são consideradas mais fortes por alguns médicos, um caso claro de racismo.

Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra

No dia 27 de outubro é comemorado o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra. A data busca mobilizar os profissionais de saúde para demandas específicas da população negra, buscando promover a equidade em saúde. A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra foi instituída pela Portaria nº 992, de 13 de maio de 2009.

A política reconhece o racismo, as desigualdades étnico-raciais e o racismo institucional como determinantes sociais das condições de saúde. Com isso, visa promover a equidade em saúde e estabelecer ações de cuidado, atenção, promoção à saúde e prevenção de doenças.

Resultados de um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, confirmam que pretos e pardos morreram por covid-19 mais do que brancos no Brasil. O grupo analisou a variação da taxa de letalidade da doença no Brasil de acordo com variáveis demográficas e socioeconômicas da população. Cerca de 30 mil casos de notificações de covid-19 até 18 de maio disponibilizados pelo Ministério da Saúde foram levados em conta.

Considerando esses casos, quase 55% de pretos e pardos morreram, enquanto, entre pessoas brancas, esse valor ficou em 38%. A porcentagem foi maior entre pessoas negras do que entre brancas em todas as faixas etárias e também comparando todos os níveis de escolaridade.

O estudo também concluiu que, quanto maior a escolaridade, menor a letalidade da covid-19 nos pacientes. Pessoas sem escolaridade tiveram taxas três vezes superiores (71,3%) às pessoas com nível superior (22,5%).

Cruzando escolaridade com raça, então, a situação piora: pretos e pardos sem escolaridade tiveram 80,35% de taxas de morte, contra 19,65% dos brancos com nível superior.

A falta de acesso a serviços de saúde, falta de acesso à moradia, falta de acesso a saneamento básico e a fome adjunta da necessidade de se trabalhar e assim se colocar em risco de contaminação do vírus, aumentam drasticamente as chances da população negra e pobre contrair o coronavírus.

Mesmo com a ajuda do governo federal do auxílio emergencial de R$ 600 mensais para trabalhadores informais, alguns pesquisadores consideram essa quantia insuficiente para a sobrevivência dessa parcela da população. As pessoas têm que sair para arrumar comida, e ao sair, se contaminam mais facilmente, a realidade é completamente distinta à situação de quem pode ficar isolado ou trabalhando de casa.

Para resolver esse problema, os especialistas dizem ser preciso endereçar o problema da desigualdade no Brasil em geral, enfrentar o racismo e investir no SUS, o sistema universal de saúde brasileiro. Devem ser feitas estratégias colocando a questão do enfrentamento ao racismo no centro do debate, para que pessoas negras tenham o mesmo acesso ao mercado de trabalho e serviços de educação e saúde de qualidade.

A FUI acredita que é necessário refletirmos sobre isso e que enquanto não tivermos uma sociedade preparada para reconhecer o racismo como estrutural será bem difícil que as mudanças sejam realizadas.

Publicado por Fui / Gabriela Castro e Verônica Jellifes

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