O que é a doença lúpus?

Atualizado: Mar 11

O Lúpus, que faz parte da campanha do Fevereiro Roxo, é uma doença autoimune rara provocada por um desequilíbrio do sistema imunológico. A doença é mais frequente nas mulheres do que nos homens.

Peças quadradas formando a palavra Lupus
O lúpus é uma doença autoimune rara provocada por um desequilíbrio do sistema imunológico.

O que acontece é que a defesa imunológica se vira contra os tecidos do próprio organismo como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. Essas múltiplas formas de manifestação clínica, às vezes podem confundir e retardar o diagnóstico.


Lúpus exige tratamento cuidadoso por médicos especialistas. Se tratadas adequadamente, pessoas que possuem a doença têm condições de levar uma vida normal. Por outro lado, as que não se tratam, acabam tendo complicações sérias, às vezes, incompatíveis com a vida.


Confira uma entrevista do site do médico Drauzio Varella sobre a doença com a reumatologista do Hospital de Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, Ana Luisa Calich. Ela explica a origem do nome da doença, quais suas causas e dá orientações para evitar as crises.


A entrevista está no formato de vídeo, mas se preferir, pode acompanhar a transcrição:


Drauzio Varella: De onde vem o nome Lúpus?


Ana Luisa: Esse nome vem da idade média. Muitas vezes o paciente tem lesões na face e que era chamado de lesões parecidas com lesões que os lobos podiam causar, como arranhaduras. Então esse nome de lúpus vem de lobo.


Drauzio Varella: A doença é causada de que forma?


Ana Luisa: É uma doença bastante complexa, como o senhor mesmo falou. A causa dela exata é multifatorial, não existe um único fator que consegue explicar essa doença, mas basicamente ela é uma doença autoimune. E o que seria isso? Então o seu próprio corpo criaria uma autoagressão, acho que é a forma mais fácil de a gente entender o que seria o lúpus. Então você produz anticorpos, que na verdade são feitos para te defender contra microorganismos externos, como vírus, bactérias, é um sistema muito importante para o indivíduo. E quando esse anticorpo se volta contra o seu próprio corpo, pode causar manifestações muito diversas, que no caso a doença que mais representa essas doenças autoimunes seria o lúpus eritematoso sistêmico.


Drauzio Varella: Quer dizer, na verdade as próprias defesas imunológicas é que vão atacar esses diversos órgãos?


Ana Luisa: Isso!


Drauzio Varella: E eles obedecem um padrão mais ou menos uniforme em todos os pacientes ou os quadros clínicos acabam sendo muito diferentes em virtude da deposição em um órgão e não no outro?


Ana Luisa: Isso é extremamente importante. Acho que essa pergunta é essencial, porque o lúpus tem um espectro, uma variação de apresentação muito grande. Então existem desde pacientes com doença muito leve, em que esses depósitos acontecem em poucos órgãos, como por exemplo, existe o lúpus só de pele, que você vai ter uma doença restrita à pele, até quadro mais graves. Então, essa variação é muito importante para o paciente saber, porque muitas vezes quando ele recebe o diagnóstico, ele já vai ler na internet. E o que ele vai ler? O pior caso, o tipo mais grave. Então é importante ele saber que existe essa variação dependendo do local que tenha essa deposição.


Drauzio Varella: Quais são os órgãos mais frequentemente acometidos além da pele e das articulações?


Ana Luisa: Então, as articulações, esses sintomas sistêmicos como eu falei, a febre, a perda de peso. Muitas vezes o paciente tem acometimento das pleuras ou pericárdio, que são membranas que recobrem o coração e o pulmão. Então o paciente pode apresentar dor torácica, dor para respirar. Esse é um dos órgãos acometidos também. Outro, o sistema hematológico é bastante acometido. Então o paciente pode ter anticorpos contra as suas células. Então ele pode ter uma anemia, glóbulos brancos reduzidos, plaquetas baixas. Então isso também acontece bastante. E os dois órgãos mais graves que a chama de acometimento seria o rim, que em 50% dos casos você tem um acometimento, e muito mais raro, mas também com uma gravidade grande, o sistema nervoso central, que o paciente pode ter quadros psicóticos, convulsões, derrames. Mas essas são manifestações graves, mas raras, bastante raras.


Drauzio Varella: E quando você recebe uma paciente hipotética, assim, que vem com lúpus em atividade, você trata, induz uma remissão. Ela volta à vida normal, sem tomar remédio, sem nada. Fica bem. Você costuma dar que orientações gerais? O que ela pode fazer para si mesma para impedir que ocorram novos surtos, ou pelo menos para retardar o aparecimento deles?


Ana Luisa: Eu acho que assim, basicamente, pensando no lúpus, é extremamente importante isso da proteção solar. Então, utilizar protetores solar de, por exemplo 50, nível 50 de proteção. E sempre ficar, quando vai se expor ao Sol, repassar o produto várias vezes ao dia, pois como eu já falei, o Sol realmente tem uma importância na atividade da doença. Então, isso para 100% das minhas pacientes eu falo. Outras coisas, é realmente evitar alguns medicamentos, como por exemplo, a pílula com alta dose de estrógeno também é importante. Não pensando só no lúpus, então essas pacientes, o que se sabe hoje em dia, elas têm uma doença aterosclerótica mais precoce do que a população saudável. Então o que seria essa doença aterosclerótica? Seriam placas de colesterol nos vasos e isso causa infarto, derrame. Então é importante tirar os outros fatores de risco para o desenvolvimento dessa doença. E quais seriam eles? Então, principalmente, fumar. Se uma pessoa saudável tem todo o malefício do cigarro, no lúpus muito mais. Primeiro pela doença mesmo e pela doença aterosclerótica. Atividade física: essencial. Diminui a fadiga do lúpus. Então, pacientes que fazem atividade física com lúpus têm menos fadiga e também tem todo o efeito de melhora no colesterol, se sente melhor o paciente que faz atividade física. E uma dieta saudável também para evitar níveis de colesterol muito elevados. Então, basicamente, são aquelas recomendações que damos para todos os pacientes, mas que têm que ser mais enfatizadas ainda nos pacientes com lúpus.


Drauzio Varella: Você pode curar um doente de lúpus?


Ana Luiza: Cura, como nas outras doenças como pressão alta, diabetes, ainda não chegamos nesse medicamento, nessa pílula mágica que curaria o lúpus. Ela é uma doença crônica que tem controle. Então, muitas vezes o paciente apresenta remissões da doença. Então, ele se sente curado realmente. Ele não tem nenhum sintoma, muitas vezes nem precisa tomar remédio, mas não é a cura da doença. Não existe um remédio que possa realmente curar ele até o momento.


Drauzio Varella: É possível viver muitos anos com lúpus, viver tanto quanto uma pessoa que não tem a doença?


Ana Luzia: Sim, exatamente. Não existe mais nenhum nível de mortalidade, claro que, muito mais alto do que na população normal. Hoje em dia se tem vidas longas, normais, como a população saudável.


Drauzio Varella: Sua carreira ainda será longa, e como você vê o tratamento da doença? Para que direção o futuro aponta?


Ana Luiza: Eu acho que o futuro para o lúpus é um futuro breve, vamos ter muitas mudanças no tratamento. Essa nova era para a reumatologia dos imunobiológicos, que agem em pontos específicos da imunidade. Acho que é um caminho muito promissor e que as pesquisas estão caminhando muito rapidamente.


Publicado por Fui / Verônica Jellifes

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