Depressão: um relato de quem enfrentou e superou a doença

Atualizado: há 6 dias


A depressão produz alteração do humor e provoca uma tristeza profunda.

A depressão, ou transtorno depressivo, ao contrário do que muitos possam dizer, é uma doença. Uma doença psiquiátrica crônica e recorrente que atinge por volta de 350 milhões de pessoas no mundo e pode atingir, inclusive, crianças e adolescentes.


A doença produz uma alteração do humor e provoca uma tristeza profunda associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como mudanças no sono e no apetite. Os quadros variam de intensidade e duração e podem ser classificados em graus leves, moderados e graves.


É importante distinguir a depressão de uma tristeza transitória provocada por acontecimentos difíceis e desagradáveis, mas que fazem parte da vida de todas as pessoas. Diante das adversidades, as pessoas sem a doença sofrem, ficam tristes, mas encontram uma forma de superá-las. No entanto, quando a pessoa sofre de depressão, a tristeza permanece, mesmo que não haja um motivo aparente. O humor permanece deprimido praticamente o tempo todo, por vários dias seguidos. Desaparece o interesse pelas atividades que antes davam satisfação e prazer e a pessoa não tem perspectiva de que algo possa ser feito para que seu quadro melhore.


Rafaela Sodré, enfermeira e especialista em auditoria em saúde, teve depressão e relatou alguns momentos em que sofreu com a doença. Ela conta que antes de ter o diagnóstico de depressão, o que a fez ir ao médico foram as fortes dores que ela sentia. “Eu iniciei com dores no corpo. Dores muito intensas. Fui diagnosticada com fibromialgia, que é a doença da dor. E o surgimento dela é por questão emocional. Um ano antes, eu tinha perdido meu pai. Eu também estava no meu primeiro ano de casamento. Tudo novo pra mim e também no trabalho eu estava com um novo cargo de liderança há pouco tempo. Tudo era novidade e tinha muita pressão. Tive muitos estresses e não estava sabendo lidar muito com isso. E aí o meu corpo sentiu. Comecei a sentir muita dor. Inicialmente na coluna, depois nos braços, até que chegou um momento em que eu estava com o corpo todo doendo. Da ponta do pé até à cabeça.”

A enfermeira Rafaela Sodré.

Rafaela conta que demorou um bom tempo investigando até ter o diagnóstico de fibromialgia, pois não existe um exame específico para a doença e mesmo depois que descobriu o problema, os tratamentos não faziam efeito. “Iniciei o tratamento e não passava. Isso foram um, dois, três, foram 6 meses que as medicações não tinham efeito algum nas dores. Então, eu não sentia dor quando estava dormindo.” O fato de sentir dor a todo momento foi o fator que desencadeou a depressão. “Tudo isso foi gerando uma tristeza muito grande e eu comecei a ter um desespero de alma. Eu não queria mais aquilo. Não queria mais sentir dor. Eu já não via mais sentido na vida. Tive que me afastar do trabalho. Não estava sendo útil. Não estava conseguindo produzir. E foi nesse momento, que conversando com o médico reumatologista, nós dois decidimos partir para um acompanhamento psiquiátrico. Eu precisava e eu quis isso, porque eu sendo da área da saúde, sabia que isso poderia acontecer.”


O diagnóstico da depressão veio junto ao médico reumatologista e psiquiatra. “Eu tinha pensamentos de morte. Eu não queria mais viver, porque era só dor. Eu não via solução, as medicações, tratamentos alternativos, pilates, fisioterapia. Tudo o que eu podia fazer eu estava fazendo e nada passava. Então, eu não queria mais viver. Eu deixei de ter vontade, não só da vida, mas também das coisas triviais. Tinha dias que eu não escovava os dentes, não saia da cama. Não ia para a igreja. Não queria falar com ninguém. Tinha pânico quando meu celular tocava. Eu queria ficar sozinha. Chorava bastante. Só comia para sobreviver, porque via meu esposo e minha mãe muito preocupados.” Rafaela relata que desejava morrer, mas não pensava em tirar a própria vida. “Por ser cristã, eu tinha convicção de que eu não faria nada contra a minha vida, a tentativa de autoextermínio. Pela convicção de céu, de eternidade. Mas eu orava a Deus pedindo a morte. Eu falava, se a gente pede, Deus dá. Então eu orava a esse respeito, pedindo que o Senhor me tirasse daquele sofrimento de alma, me levando.”


A partir daí, ela começou o tratamento, mas inicialmente não deu muito certo. “O médico me deu uma medicação que no início me gerou muitos efeitos colaterais. Eu tinha algumas alucinações, não sabia se eu estava na realidade ou se estava sonhando. E aquilo me deixava um pouco atormentada em saber que parecia que eu estava indo à loucura. Engordei 10 quilos em um mês. Enfim, os efeitos colaterais estavam piores do que o meu processo todo. Aí fiz uma mudança de médico, porque eu não sentia segurança. Nesse novo médico mudou totalmente os meus medicamentos. Na época eram bem mais caros, mas foi o que começou a dar efeito.”


Após iniciar o tratamento, Rafaela conta que sentiu algumas melhoras, mas que elas não vieram de um dia para o outro, foi um processo demorado. “Uma das primeiras melhoras foi um pouco mais de energia, porque me faltava muita energia. Para falar, para andar. A depressão me deixou realmente de cama. E ao iniciar o tratamento, eu senti um pouco mais de disposição. Então eu comecei a me alimentar melhor e tinha disposição para ver que eu poderia fazer algumas coisas. Por exemplo, lavar uma louça para mim era algo desafiador, mas aí eu comecei a fazer isso e a limpar minha própria casa. Não era só o Délcio (esposo) que estava ali sozinho. Enfim, essa foi uma das primeiras melhoras a nível medicamentoso, mas assim, tudo muito demorado. E no processo de terapia, as melhoras foram: eu comecei a compreender os motivos pelos quais eu estava daquela forma. Alguns traumas, alguns conceitos que eu achava que eram verdade. Algumas crenças que eu achava serem verdade, mas que eram mentiras que a minha mente lutava. Eu tinha acreditado que eu não era capaz, que eu não podia. Enfim. Então, a terapia me ajudou a enxergar que eu poderia resignificar muitas coisas que eu acreditava ser certo. E ali foi o início de olhar com esperança para o meu futuro. Porque eu não via futuro mais. Era tudo muito incerto. Eu só conseguia ver aquele momento. Aquela escuridão. Aquela dor. Aquele sofrimento. Aquele desespero. Então eu não tinha esperança. Foi como se os meus sonhos tivessem sido trancados em um armário e a chave tivesse sido jogada fora. Eu não via mais esperança de uma vida plena. Para mim eu só iria sobreviver. Então, com o medicamento eu comecei a ter energia. Com a terapia, eu comecei a ver que eu poderia sim pegar essa chave desse armário. Que eu poderia abrir, que era possível sim! Era possível a vida. E foi um processo. Eu tinha 24 anos quando comecei com a fibromialgia. Aos 25 é que veio bem intensa a depressão. Dos 27 para 28 é que eu consegui, de fato, andar com as minhas próprias pernas emocionais. Então, foi um processo longo. Foram 3 anos de terapia e medicamentos.”


Rafaela expõe que precisou mudar de terapeuta por conta de uma demanda específica que precisava em seu tratamento. “Por conta da dor intensa, eu precisava de um procedimento que chama hipnose, que eu já estava estudando. Porque nada tirava a minha dor. Fazia acupuntura, laser, pilates, de tudo e não era eficaz. Aí eu li sobre a hipnose. Não é regressão, é uma técnica mesmo, que o psicólogo que tem formação específica faz. De forma consciente ele leva a sua mente a acreditar que você não tem aquela dor. Então é uma forma muito interessante. Eu mudei de terapeuta com esse objetivo e me ajudou muito também.”


Ainda sobre o tratamento contra a depressão, a enfermeira afirma que a família fez toda a diferença em sua luta contra a doença. “A família é muito importante, principalmente os de casa. É importante sempre olhar para a pessoa, não com olhar de dó, nem compaixão, nem comiseração, mas dizer: nossa, eu sei que você está sofrendo. Eu estou sofrendo com você. Essa dor tá aí, é real, mas eu tô aqui do seu lado. Isso fez toda a diferença pra mim. O meu casamento era o que me dava mais conforto, porque o Délcio sempre foi muito amigo, muito parceiro. Ele era o meu maior psicólogo, na verdade. Eu conversava muito com ele. Horas e horas. E ele me ouvia de forma muito empática. Me ajudava muito também a enxergar possibilidades. Ele também foi um dos motivos para eu não desistir, porque quando se ama de verdade, você quer a felicidade do outro. E eu tinha e tenho muita certeza do amor dele por mim. E eu falava, eu não posso ser egoísta. Eu tenho que enfrentar esse medo e esse desespero, porque o Délcio precisa de mim, precisa do meu amor. Porque ele me ama e eu não posso dar essa tristeza na vida dele, que é perder a esposa.”


Quando questionada sobre o que mais ouvia das pessoas durante o período em que estava enfrentando a doença, Rafaela declara que ouviu coisas boas e ruins. “O que eu mais ouvia era: Não, Rafa, você não tem isso, não. Faz um exercício. Faz uma viagem. Ou então: não, Rafa, você precisa orar mais, porque isso aí é o inimigo. Já ouvi também que eu tinha que orar para saber se tinha algum pecado oculto na minha vida, que eu estava tendo um castigo de Deus. Eu falo dessa forma, mas essa era a mensagem. Eu ouvi que era frescura e eu que estava querendo ter atenção. Algumas pessoas não precisavam falar, eu via no olhar. O que mais doía era quando era da própria família. Eram as pessoas que mais me conheciam, então era onde mais doía. Mas eu também ouvia coisas boas.Teve uma vez que eu fui à igreja e um irmãozinho chegou e falou: nossa, Rafa! Que bom te ver! Tava sentindo tanta a sua falta. Foi diferente a abordagem dele. Não foi, você melhorou? Agora você está bem? Nossa, você sumiu, hein? Então aquilo me fez falar: nossa, alguém me nota, eu tenho importância na vida de alguém. E não que isso fosse uma carência, porque a minha mãe, o meu esposo, a minha família não me deixam sentir isso. Nunca foi uma questão de rejeição, de não ser amada. De forma alguma, sou bastante! Me sinto muito amada! Mas, diante das pessoas de fora aquilo foi bem legal, me deu uma força para falar: preciso melhorar e ser benção na vida das pessoas.”


A enfermeira relata que no dia em que se deu conta de que ela havia superado o problema, chorou o dia todo. E isso aconteceu quando ela percebeu que passou a ter vontades, uma palavra que já não fazia mais parte da sua vida, já que não tinha vontade para nada. “Eu não tinha vontade de viver, não tinha vontade de comer, não tinha vontade de sair, de ver pessoas, de receber ligação, de falar com as pessoas. Se me perguntassem: qual sorvete você quer, a resposta era: tanto faz. Então a palavra “tanto faz” era muito recorrente, porque realmente eu não queria. Eu não estava desfrutando da vida, eu estava apenas levando ela. E quando eu comecei a voltar a sonhar e a ter pequenas vontades, por exemplo: vontade de ir à igreja e cantar um louvor, que é o que eu sei fazer. Vontade de comer um McDonalds. Vontade de sair com uma amiga minha. Então nesse dia, quando eu falei: nossa, eu estou com vontade, eu chorei muito e nesse momento eu pensei: eu venci!”


Ela conta que a depressão ainda é um fantasma que de vez em quando aparece para tentar assombrá-la, mas agora ela tem armas e força para lutar contra ele. “É claro que me assombra ainda. É um fantasma, mas hoje eu sei olhar para esse fantasma e não mais me amedrontar. Eu olho para ele, me entristeço por ele existir, mas eu sei como afastá-lo de mim. Eu sei como não deixá-lo mais me abater. Hoje eu tenho ferramentas. Hoje eu sei como lutar.”


Rafaela diz ter uma frase marcante em sua vida e que hoje é o seu lema: “A vida é uma dádiva de Deus,que deve ser desfrutada, repartida e devolvida a Ele.” E afirma, “eu quero desfrutar de tudo aquilo que eu sou, que eu tenho, que Deus me deu. Que eu tenho à minha disposição, todas as possibilidades, que são tantas. E eu quero repartir a minha vida com as pessoas e devolver a Ele essa vida.”



Publicado por Fui / Verônica Jellifes


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